Fortuna crítica

Raul Córdula
Memórias da Pele

Dormem, no fundo da alma, sinais, ícones, signos, e outras marcas arcaicas. Às vezes, porém, elas acordam, ganham vida, se revelam. Então aparecem nos muros da cidade, no cimento úmido das calçadas, nos papéis que ficam ao lado dos telefones aonde os falantes escrevem inconscientemente garatujas, nas areias das praias, nas pedras, por todo lugar. São manifestações rupestres, as mesmas que nossos ancestrais pré-históricos faziam para se comunicarem, como a carimbada da mão melada de sangue sobre a parede rochosa da caverna, ou o bisão pintado com carvão e ocre ou as insculturas das estelas celtas.

Assim é esta série de pinturas de Plínio Palhano. Materialmente os quadros são carimbados com matrizes de couro de boi melado de tinta, como as mãos eram as mãos do artista antigo. Signaleticamente são referências ao boi, como fez Picasso em Guernica, que ele cita pictoricamente. A iconografia se refere à guerra pela carne e à invocação do guerreiro. À guerra quando a imagem do boi rupestre se manifesta na tela, à invocação quando sígnos da cultura religiosa africana sinalizam crenças e ritos.

Trata-se de um trabalho impactante, obra de quem se renova sempre, integrante da geração dos grandes artistas do Recife. Um profissional perene que representa a maior tradição da arte pernambucana: a pintura.

Raul Córdula
Mare Nostrum

Mare Nostrum, esta série de pinturas de Plínio Palhano referentes à abundância do mar, “útero do mundo”, como escreveu o poeta paraibano Vanildo Brito nas Odes ao Cabo Branco. Os peixes, tema visual destas pinturas claramente inspiradas no milagre, são o registro de sua pulsão de pintar, seu labor e seu êxtase marcado pela quantidade. Sem observar diretamente o que se passa dentro do mar, pinta os movimentos dos cardumes de uma forma que, mesmo tendo como modelo registros fotográficos, transmitem a elegância de seus gestos pictóricos, a mesma que estamos acostumados a ver em outros momentos de sua arte.

A pintura é o emblema das artes visuais. Com ela o homem se comunica desde sempre, e se comove contemplando o que faz, trabalhando e refletindo.

A religiosidade é recorrente na pintura de Plínio. Recentemente vimos no Museu do Estado uma exposição de grandes telas dedicadas a símbolos e mitos pintados de forma diferente, com stencils e carimbadas, mas que transportavam o mesmo ritmo da pincelada consciente, mas ao mesmo tempo carregada de uma liberdade inusitada que nos leva a pensar em ritos sem dogmas. Nelas estavam também referências à pré-história da arte, manifestações xamânicas que parecem estar estampadas em nosso inconsciente voltado ao culto, ao mistério e a magia, como era e é o cristianismo em seus mais profundos mistérios, como a memória ancestral do sangue e do corpo transformados em pão e vinho.

Raul Córdula
A Mão armada de cores

Uma das vertentes mais ricas da nossa arte contemporânea se manifesta através de um informalismo compulsivo. Na pintura de Plínio Palhano essa tendência se faz de forma viva quase coreográfica, numa dança progressiva que constrói uma fascinante obra de cor e movimento. Os grandes formatos das telas, que suportam a dramaticidade dos vários movimentos deste "ballet" de cores, são a arena onde as lutas internas do artista deságuam neste mar de intranqüilas ondas, ulterino como o mar primevo, gerador de mundos. Arena ou "tatame", as telas grandes me lembram o que ouvi um dia de Manabu Mabe: "Como um Samurai eu ataco a tela com meu pincel: cada cor um golpe, cada golpe um movimento..."

Ondas intranqüilas como intranqüilos são os passos de quem gera, de quem acrescenta à superfície do planeta mais combustível para o fogo das almas. É melhor dizer convulsivo, como uma música sem escala, mas de ritmo exato e de harmonia forte: atonal e vibrante. O conjunto da obra atual de Plínio é diferente na sua unidade, mas forma no seu todo uma peça coesa, um todo singular na variedade de emoções distintas e opostas que deixam-se passar pelas tramas do seu tecido nervoso. Como música, se sequencia em andantes, pizzicatos, alegros e cantatas surgidas do revolver da matéria pictórica buscando uma apoteose que venha a traduzir toda esta armação de figuras representadas - não a figura-figurativa, mas o signo humano, a referência centrista de "eu estou" - passos de danças, cenários, climas, reflexões e emoções extremas. Mas este clímax, no entanto, traz em si a contradição que identifica o maior delírio do artista, pois nos últimos quadros a pintura entra em sintonia com a paisagem e passa a representar a exuberante visualidade de Olinda. Não esbarrando nas normas acadêmicas (figura, paisagem, abstração) seu processo criativo confunde-se com seu próprio processo de vida, carregado de todo seu complexo psicológico. Desabrocha outro sentido nessa pintura, ou melhor, nessa repintura, pois que ela repinta, revela, redescobre esta Olinda assombreada de verdes e vermelhos, de escuros nas copas das mangueiras, de cores amadurecidas, azuis-marinhos, luzes cortadas de nuvens, pouca geometria e sopro vegetal. Neste ponto a pintura foge ao domínio do artista e torna-se coletiva, deixa o terreno da introspecção e ganha os quintais e as ruas, desloca-se do palco - lugar de exercícios solitários - e vai para o ar livre - a pele do planeta, lugar de vivência - se confundindo com o ato de viver.

Se a vemos de longe podemos pensar que a obra de Plínio vem percorrendo um acidentado caminho de dentro para fora, um processo de gestação e parto em busca da construção do seu ser. Do signo à paisagem libertadora, da modulação cromática à matéria, à massa de tintas puras, como se sua mão se armasse de cores e sua retina de espaços, a registrar seu próprio corpo, sua verdade absoluta.

Se a vemos de perto podemos ver os instrumentos deste artista: sua imprecisão, suas frases soltas, suas sugestões de figuras-fugurativas, suas negações e medos, suas afirmações taxativas. O caminhar no palco, a carpintaria, a iluminação, o som - o som da cor - o brilho, a umidade, a segurança, a limpeza e a velocidade.

Um texto assim não se conclui: é como a pintura de Plínio. Vocês ainda não viram nada...